sábado, 2 de outubro de 2010
Kronika Donostiarra (ou "Causo de San Sebastián")
Mas, como ali a beleza é diretamente proporcional ao preço, depois de uns dois pintxitos já passamos a seguir a nossa rota gastronômica passou a ser somente enófila, já que os "chikitos" (doses de vinho jovem servidas em copos de boca larga, típicos de sidra, por exemplo) custavam baratinho, entre €0,50 e €1,00 (normalmente, primeiro valor se vão com a sua cara, o segundo se não - como nunca tem cardápio de bebida e ninguém pergunta antes de pedir, você só descobre na hora de pagar - mas ainda assim, continua sendo barato). Na verdade, eu que nunca me senti menosprezada por ser gringa, ali me sentia um pouco não por não não ser espanhola, mas por não ser basca, como contei aqui - mas nada que me fizesse perder a noite, claro.
Quando você decide passear de bar em bar em uma cidade desconhecida, normalmente o critério de decisão de onde entrar ou não é a cara do bar; no nosso caso, buscávamos lugares que parecessem simples (se é só pra tomar um vinhozinho, não tem problema ser biboca, né?) e pouco turistóides.
Minha vez de escolher, olho um barzinho cheio de gente com pinta de desencanada. "Vamos!"
Entramos.
Gelei.
O que o de fora era um bar cheio de gente (inclusive duas famílias sentadas em mesas), visto de dentro, era o lugar mais pró-independência basca que eu já tinha visto na vida. Absolutamente tudo escrito em euskera e paredes cheias de cartazes independentistas; acima do balcão, uma série de fotos tamanho A4 de rostos com os olhos tapados por um retângulo negro; ao lado do garçom, um enorme pote de vidro para arrecadação de colaborações para, dentro da minha compreensão totalmente limitada de basco, "liberação de companheiros presos".
Como sair parecia pior do que atuar normalmente, fomos para o balcão e pedimos dois vinhos tintos. Primeiro gole, pego um guardanapo, que ao invés do tradicional "esquerrik asko" ("muito obrigado") leva estampado um mapa dessa região autônoma espanhola com setas indicando o interior, seguidos pela frase "maite zaituztegu" ("amamos vocês", em basco, muitas vezes usado como expressão de apoio aos extremistas). Discretamente, peguei alguns e guardei na bolsa, como souvenir. Falando em souvenir, na prateleira à minha frente, todo tipo de produtos à venda com slogans nacionalistas bascos, bandeiras, bonés, canecas, adesivos...
"Ai que vontade de tirar uma foto!", suspirei.
"Nem pensar! Depois você que procure na internet. Termina esse vinho e vamos!", respondeu meu namorado entre dentes.
Pagamos os dois euros devidos, saímos. Olhei a fachada do bar, tentando guardar na memória - ainda estava sendo olhada demais para tirar uma foto.
Sim, existe outro país no norte da Espanha, e o nome dele é Donostia, ou País Basco. A comida é ótima e as cidades são lindas, mas o nacionalismo extremado, visto de perto, dá medo.
P.S.:
Há algumas semanas, o ETA, organização separatista basca, veio a público com uma vídeo-mensagem em que, debaixo dos tradicionais capuzes, afirmavam estar em um período de suspensão das ações armadas; no domingo passado, foi divulgada uma carta enviada pelos mesmos aos signatários da Declaração de Bruxelas, afirmando estarem dispostos s "estudar juntos" medidas que poderiam ser adotadas para alcançar a democracia na região. Infelizmente, não parece digno de credibilidade - apenas uma tentativa de ganhar abertura política em um período pré-eleitoral, principalmente por não fazer nenhuma referência prática a um verdadeiro cessar-fogo - as palavras foram totalmente desmentidas quando a polícia espanhola encontrou material de treinamento em armas de fogo para membros da organização.
Até quando, Euskadi? Somos todos feitos da mesma carne e sangue.
Paz.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Onde ir e onde não ir em San Sebastián

Recentemente estive em San Sebastián (ou Donostia, seu nome basco), e voltei com uma lista involuntária de "dos and don'ts" que acho que vale a pena compartilhar aqui no blog.
Localizada no norte da Espanha, pertencente à província de Guipuzkoa, no País Basco espanhol, a cidade é famosa por suas praias e seus pintxos, aquelas comidinhas que acompanham as bebidas nos bares espanhóis. Também é conhecida por ser uma cidade cara: enquanto em cidades como Madrid é possível tomar uma taça de vinho e uma comidinha por menos de dois euros, somente o pintxo (sem bebida) em San Sebastián custa, no mínimo, €1,70 em qualquer bar simples – e pode chegar até €4,00 em bares hypados.
Muita gente diz que vale a pena – realmente há pintxos super elaborados, coloridos e lindos, incluindo queijos renomados e canapés de frutos do mar. Na minha opinião, depende, porque parece que alguns bares perderam um pouco o critério: muitas vezes um mísero sanduichinho de jamón ou uma torradinha com um chorizo custam muito mais do que em qualquer outra cidade espanhola que eu conheça.
Além disso, quando sair de tapas em Donostia, cuidado: nacionalistas que são, muitos bascos não são muito fãs dos gringos que visitam a cidade – e, como em todo o país, praticamente nunca há cardápios de bebidas nos bares, somente de comidas. Por isso, se você notar grande diferença no valor cobrado em um bar e em outro, pode não ser só impressão: o garçom pode, sim, estar te sacaneando. Por exemplo: uma dose de vinho jovem (ali normalmente não se serve vinho em taças mas sim em copos altos e de boca larga, como os de sidra) custava, normalmente, €0,50, mas em alguns bares saía pelo dobro, 1 euro. Em um bar, o garçom descaradamente cobrou de mim 1 euro, enquanto o basco que tomou um vinho a meu lado pagou €0,40, menos da metade. Eu, que nunca tinha me sentido vítima de preconceito, saí dali meio chateada – e guardei o nome do lugar pra nunca mais entrar.
E isso pedindo em castelhano alto e claro – imagina se fosse em inglês...
Ainda assim, a cidade é realmente um encanto com suas lindas praias, suas ruas de pedra e grande agito noturno, e tem muitos estabelecimentos que se destacam pela combinação bons produtos + gente simpática.
Alguns exemplos são o bar Gorriti (com pintxos deliciosos), o bar-restaurante Izkiña (um dos únicos que coloca o preço de todas as bebidas à vista dos clientes) e a lanchonete Koskol (que oferece sanduíches imensos a partir de 3 euros). Fuja de lugares como o Bartolo (caríssimo e com pintxos de uma falta de sabor frustrante) e o Kukurruku (autor da sacanagem com esta blogueira).
Bar Gorriti: calle San Juan, 3 (tel. 00 34 943428353)
Restaurante Izkiña: calle Fermín Calbeton, 4 (tel. 00 34 943422562)
Koskol: calle Iñigo, 5